Um manezinho, uma fita no céu e 100 anos de história
Tem dias em que a cidade respira diferente. Hoje, 16 de maio de 2026, foi um desses dias. Florianópolis acordou olhando pra cima — e o motivo tinha nome, sobrenome e uma fita de poucos centímetros de largura suspensa entre dois pontos improváveis: o topo do prédio Top Market, no Centro, e a Ponte Hercílio Luz.
O protagonista é o Rafael Bridi, atleta catarinense nascido aqui em Florianópolis, um dos maiores nomes do highline no mundo. Hoje ele saiu em busca do seu quarto recorde mundial pelo Guinness Book, justamente em meio às comemorações dos 100 anos da Ponte Hercílio Luz, nosso principal cartão-postal.
E quem é da ilha sabe: quando a Hercílio Luz vira palco, é parada obrigatória.
Quem é Rafael Bridi
Antes de falar da travessia em si, vale entender quem é esse cara.
O Rafael pratica highline desde 2013 e já realizou mais de 600 travessias em diferentes países. É um dos fundadores da Federação Internacional de Slackline (ISA) e construiu uma carreira marcada por desafios que unem alto desempenho, estética e simbolismo.
Os três recordes que ele já tem registrados no Guinness Book dão a dimensão do que esse manezinho faz:
- O maior highline dentro de um vulcão ativo do mundo, no Monte Yasur, em Vanuatu.
- O highline mais alto do mundo em relação ao solo, realizado entre dois balões a 1.901 metros de altura, em Praia Grande, na Serra Catarinense.
- A travessia a 1.008 metros de altura sobre o Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, na Venezuela.
Esses números até impressionam, mas o que me chama a atenção é outra coisa: tem um fio condutor no trabalho do Rafael que vai além do esporte. Ele usa o corpo, a fita e a altura pra contar histórias dos lugares por onde passa. É quase um trabalho autoral — bem parecido com o que a gente busca no audiovisual: técnica a serviço de uma narrativa que toca quem vê.
O plano original e a mudança de rota
O projeto inicial era ambicioso: uma travessia no sentido Continente–Ilha, ligando dois edifícios próximos às cabeceiras das pontes, a cerca de 85 metros de altura sobre a Baía Sul. Se completasse sem falhas, Rafael bateria a marca atual do estoniano Jaan Roose, que em 2024 percorreu 1.070 metros sobre o estreito de Bósforo, em Istambul.
Acontece que esse tipo de desafio depende de muito mais do que vontade. Condições técnicas e climáticas entram na conta, e em Floripa, vento e oscilação não perdoam. Por conta disso, o trajeto foi reajustado e a travessia acabou sendo realizada do topo do prédio Top Market, no Centro, até a Ponte Hercílio Luz. A distância ficou praticamente a mesma: cerca de 1.230 metros.
Mudou o desenho. Não mudou o tamanho do desafio.
A queda, o restante do percurso e o que fica
E aqui vale o registro honesto: o recorde não veio.
Logo no início da travessia, o Rafael teve uma queda na fita. Pra quem não conhece a modalidade, isso não significa cair pro vazio — o sistema tem uma fita principal e outra de segurança logo abaixo, e o atleta caminha com equipamentos de proteção. Mas, em termos de cronômetro e validação do Guinness, uma queda no começo já compromete a tentativa.
O impressionante é o que veio depois.
Mesmo sem o recorde em jogo, o Rafael fez muito bem o restante do percurso. Levantou, retomou o ritmo e atravessou. E é nesse pedaço que mora a história que eu mais quero contar.
Porque é fácil ser excelente quando tudo está dando certo. Difícil é continuar quando o objetivo principal já foi embora e ainda tem 1.200 metros de fita pela frente.
A cidade que estava ali embaixo entendeu isso. Não houve frustração. Houve aplauso. A festa não foi ofuscada pela queda — e talvez tenha sido o contrário: o Rafael mostrou que o esporte de alto nível também é feito de imperfeição, recomeço e entrega.
A cidade no meio do espetáculo
Estive por lá fazendo a cobertura oficial para a equipe do atleta, e o que mais me marcou, mesmo no meio do trabalho, não foi exatamente o que acontecia lá em cima.
Foi a cidade embaixo.
Gente parando no meio do trânsito pra apontar pro céu. Famílias inteiras com a mão na testa fazendo sombra. Crianças sentadas no ombro dos pais. Milhares de celulares filmando. Estranhos conversando entre si como se conhecessem.
A Ponte Hercílio Luz, que faz 100 anos esse mês, voltou a fazer aquilo que sempre fez melhor: juntar gente. Em 2020, durante a reinauguração da ponte depois de décadas fechada, o próprio Rafael já tinha protagonizado uma travessia entre as torres da estrutura, percorrendo cerca de 340 metros. Agora, no centenário, ele retornou ao mesmo cenário em outra escala — e a cidade respondeu.
Por que isso importa pra quem trabalha com imagem
Não dá pra falar de um evento como esse sem pensar no que ele significa pra quem vive de registrar momentos.
Uma travessia de highline é, em essência, um ato silencioso. Um cara, uma fita, um vazio. Mas o que acontece em volta é onde mora a história: o público, a luz que muda, o vento que balança a fita, a expressão de quem assiste, a expressão de quem caminha. Tudo isso é narrativa.
E hoje tinha uma camada a mais. Quando o Rafael caiu logo no começo, o tipo de imagem que valia a pena registrar mudou junto. Não era mais sobre o recorde sendo batido — era sobre alguém retomando. Sobre o público sustentando. Sobre uma cidade decidindo, em tempo real, que o que estava acontecendo ali não dependia do número final pra ser histórico.
É o mesmo princípio que aplico quando faço a cobertura de um evento corporativo, de uma família, de um casamento: o foco aparente não é, necessariamente, onde está a melhor imagem. Está nas margens. Nos rostos que reagem. Nos detalhes que ninguém pediu pra você fotografar, mas que contam o tamanho do que está acontecendo.
Registrar um momento é, antes de tudo, estar presente nele.
Floripa no mapa do esporte de altitude
Mesmo sem o recorde, esse projeto deixa um legado importante pra cidade. Floripa, conhecida pelas praias, pela gastronomia e pelo casario do Centro, ganhou mais uma camada na sua identidade — a do esporte de altitude.
E ver um atleta nascido aqui assumir o protagonismo desse tipo de feito, no monumento mais simbólico da capital, em pleno aniversário de 100 anos da ponte, tem um peso que vai muito além de uma certificação.
É a cidade se enxergando com outros olhos. É um manezinho mostrando que daqui também saem projetos capazes de chamar a atenção do mundo.
E é também um lembrete de que o esporte, no fim, é isso: tentativa, queda, retomada. Quem assistiu hoje viu as três coisas — e isso, pra mim, vale mais do que qualquer recorde.
Pra fechar
Em algum momento da tarde, baixei a câmera por uns segundos e só fiquei olhando. A fita, a ponte, a baía, o céu. E pensei que, no fim das contas, tudo o que a gente tenta fazer — seja atravessando o vazio numa fita de 2 centímetros, seja construindo uma marca com propósito, seja registrando o instante certo com uma câmera — é a mesma coisa: encontrar equilíbrio entre técnica, presença e coragem.
O Rafa fez isso lá em cima. Inclusive depois de cair.
A gente faz isso aqui embaixo, cada um do seu jeito.
Parabéns, Floripa. Parabéns, Hercílio Luz. E parabéns, Rafa Bridi — porque o recorde não veio dessa vez, mas a festa foi inteira. E poucos atletas no mundo conseguem perder o objetivo principal e ainda assim entregar um espetáculo que faz uma cidade inteira olhar pra cima ao mesmo tempo.




































Na foto boa parte da equipe responsável.
O evento teve transmissão por live no youtube, que contou com a locução de Pedro Freiberger e comentários de Isa Rech, companheira de Rafa e também atleta de highline.
No fechamento Rafa passou a última mensagem do dia "Tem sonhos que são grandes demais para serem realizados sozinhos". Deixando uma agradecimento especial à sua equipe, à prefeitura e aos vários patrocinadores que tornaram esse dia possível.
Sobre o autor
Fabrício Sousa é fotógrafo e videomaker em Florianópolis, especializado em narrativas visuais autênticas para empresas e empreendedores. Com formação em Ciência da Computação e pós-graduação em Redes e Segurança, une o olhar técnico à sensibilidade artística pra criar projetos que conectam emoção, estratégia e propósito.